09/03/2023 às 19:01

IA Generativa - Presente e Futuro

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6min de leitura

Desde sempre tive o interesse pela tecnologia e já desde os tempos de faculdade me interessava pelo tema da Inteligência Artificial (IA). Nos tempos de estudante de Psicologia fascinava-me o facto da pesquisa desta área ter tantos académicos da área das ciências cognitivas, e de como a engenharia destes sistemas era inspirada na biologia do cérebro humano. Daí que, mesmo tendo enveredado pela melhor profissão do mundo (sim, fotógrafo!), tenha continuado sempre a acompanhar de perto os desenvolvimentos desta área. Assim, não sendo de todo expert na matéria, posso dizer de consciência tranquila que falo com bastante conhecimento de causa.

Há alguns anos, talvez 2016 ou 2017, já tinha bem presente esta necessidade de falar sobre o assunto. Lembro-me de ter questionado, em 2 ou 3 grupos de fotógrafos, sobre o impacto que os colegas achavam que a IA teria no nosso trabalho. Pelas respostas dadas, mas sobretudo pela falta delas, percebi que ainda seria cedo para falar seriamente no tema. Talvez o assunto possa ter agora a atenção inexistente nessa altura. E é esse o propósito deste artigo: despertar o interesse e o debate sobre a IA.

Antes de avançar paremos apenas para 4 rápidos disclaimers:

1 - Todas as imagens neste blog post foram criadas por mim com recurso a software de Inteligência artificial (IA). Optei por não retocar os defeitos em Photoshop. Estão como a máquina me entregou. Só para que fique claro: cada uma destas imagens foi construída de raíz, pixel por pixel. Não são foto montagens de outras imagens já existentes.

2 - Nem uma única vírgula deste texto foi gerada por LLMs tais como o ChatGPT.

3 - Quando uso o termo “máquina” refiro-me a software que usa IA na sua concepção e execução.

4 - A IA de que dispomos atualmente é a pior que alguma vez teremos.

Dito isto, vamos pôr as coisas em pratos limpos!

Com a IA Generativa o fotógrafo traz no bolso uma equipa de 5 a 10 pessoas. O seu papel é o de um criativo / director de fotografia. Ele cria o conceito, e a sua grande arte é comunicar a sua intenção, de forma clara e cirúrgica, em termos da linguagem da máquina. Ao fazê-lo está a dar toda a informação ao seu "assistente directo" para que este coloque toda a equipa a trabalhar.

O braço direito do criador devolve, em poucos segundos, uma maquete do trabalho. Cabe agora ao autor limar as arestas (por vezes até à exaustão) e orientar em direção ao resultado final pretendido.

Este trabalho não demora dias ou semanas, mas sim minutos ou horas.

O custo deste trabalho tende para zero, aniquilando toda uma economia por trás das tarefas de todas as pessoas, assim como dos produtos não adquiridos para a produção. Para além das pessoas directamente envolvidas, muitos outros negócios foram afectados: o hotel que não albergou a equipa, o restaurante que não a alimentou, os transportes que não foram usados, a companhia de seguros que ficou obsoleta…

A médio prazo acredito que 90% do conteúdo fotográfico será criado por recurso a IA. As implicações para esta profissão (e outras idênticas) são óbvias. No entanto, por paradoxal que possa parecer, acredito que este facto trará ainda mais nobreza e respeito ao nosso papel, enquanto muitos profissionais rapidamente esquecerão todo o conhecimento e engenho necessário para produzir de forma "artesanal" um trabalho deste tipo.

Neste momento a IA Generativa é uma novidade, mas no espaço de 3 a 5 anos, quando já estiver completamente enraizada e for a norma, o trabalho do fotógrafo tal como é hoje executado, será visto como algo raro e até luxuoso. Mas nem tudo será um mar de rosas, antes pelo contrário. No mercado irão subsistir apenas os melhores, os que se destacam: aqueles a quem o cliente está disposto a pagar o preço necessário por um serviço artesanal, por um trabalho humano.

Nesse futuro tão próximo, este tipo de fotógrafo será visto como um mestre, um verdadeiro artista, capaz de produzir algo tão próximo da perfeição das máquinas. E é neste "quase" que reside o valor, o corolário do esforço humano: a perfeição imperfeita.

Com a IA Generativa os humanos já estão a moldar a sua forma de pensar e comunicar de acordo com o "cérebro" da máquina. Em larga medida a máquina molda o nosso pensamento, linguagem e criatividade. É uma relação bidirecional: a máquina obedece ao que lhe solicitamos mas obriga-nos a pensar e comunicar nos seus termos.

Para todos os efeitos, a arte produzida com recurso a IA é uma arte “cibernética”: uma fusão do trabalho artístico do humano (desenvolvimento do conceito e comunicação de intenção clara e precisa em termos que a IA entenda) e o trabalho artístico da máquina (de produção/execução das ordens).

As questões à volta da IA são extremamente profundas, mesmo a um nível tão superficial quanto a criação de conteúdo. São inúmeras as perguntas que se levantam:

  • Quem é o autor?
  • Estarão as nossas profissões em risco?
  • Estarei involuntariamente a plagiar outros autores?
  • Será este conteúdo enviesado?
  • Etc, etc…

Mas se aprofundarmos um pouco o tema, rapidamente entramos em importantes reflexões filosóficas e sociais, que põem em causa todo o nosso propósito e papel neste mundo enquanto espécie.

A IA Generativa é o “hot topic” do momento, juntamente com os LLMs (Large Language Models). A sociedade parece fascinada com as suas capacidades e especula sobre como já está a mudar o mundo.

No entanto, no seio desta revolução, permanece dormente uma revolução de ordens de magnitude maior: o desenvolvimento de AGI (Inteligência Artificial Geral). A AGI, também já batizada de "a última invenção que o Homem necessitará de fazer" marcará o ponto em que uma máquina será capaz de desenvolver o trabalho intelectual equivalente ao de uma pessoa adulta de QI médio. Esta máquina não só será capaz de criar arte, mas também de conversar, dar sugestões de receitas, responder a e-mails, delinear estratégias de investimento, manter-se a par das notícias, jogar xadrez, conduzir um carro, escrever software... Ela será também capaz de estudar e aprender (como de resto, já acontece atualmente).

Mas há algo que uma AGI fará muito melhor que um ser humano, mesmo com uma capacidade intelectual do mesmo grau: fará tudo isso mais rápido, sem dormir e sem se cansar, com acesso a um vasto oceano de dados e informação, capaz de ler milhões de livros e artigos científicos em horas. Como se não bastasse terá também a capacidade de criar réplicas infinitas de si mesma. Afinal é apenas código… zeros e uns… da mesma forma que a nossa inteligência deriva apenas de átomos e moléculas, mas sem a capacidade de se replicar desta forma. 

Versões infinitas desta IA poderão comunicar entre si instantaneamente e sem barreiras de linguagem, trabalhando em grupo para cumprir os seus objetivos. 

Chegados a esse ponto, todo o trabalho intelectual será muito mais eficientemente realizado pelas máquinas, e o seu custo económico será extremamente reduzido, pelo que o Homem muito provavelmente se colocará na posição de mero observador, deixando as máquinas fazer o seu trabalho...confiantes de que as mesmas permanecerão alinhadas com a sua moral e valores.

Qual será o nosso papel nesse mundo e quão longe estamos dessa realidade??

Este é um assunto que me apetece desenvolver e muito provavelmente irei fazê-lo em breve.

Para já quis fazer este desabafo…muito com a esperança que desperte o interesse de todos. Sinto que isto tem que ser discutido. Podemos não ter respostas, mas as perguntas têm que ser feitas pois é a única forma de nos prepararmos.

Se consideras este conteúdo útil, partilha o link com os teus amigos e colegas. E partilha a tua opinião, gostaria imenso de saber o que pensas sobre o tema.

Ricardo Silva,

humano e fotógrafo.


09 Mar 2023

IA Generativa - Presente e Futuro

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